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Apissianas - Crônicas sobre o Fluminense de Feira

Publicado em 05/03/2020 ás 11:18:35

 

Crônicas Apissianas 2020 VI – Ah! Bruta flor do torcer!
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

 

Caetano Veloso

 

Estas mal escritas e virtualinas páginas têm por hábito recorrer a um filósofo romeno desconhecido quando acontecem certos acontecimentos dolorosos. Emil Cioran, é o nome dele. Conhecido como filósofo do Nada. Nada. Sartre falava disso também: “O homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo”. De fato, não fóssemos nós e a noção de nada não existiria. Os antigos já previam isso quando criaram o zero para representar o nada. A invenção do zero foi um grande marco para a matemática. Resolveu várias questões. E criou outras. Por exemplo, é difícil para um ser humano normal entender a noção de que, alguma coisa dividida por zero tende a infinito. O exemplo mais legal que me passaram para entender esse conceito foi pegar um pedaço de pão e dividir para a população da África, por exemplo. Cada um iria ficar com quase zero pedaço de pão.
Mas o nada também se aproxima de nós pelo vazio. Pelo não ser. “O não ser é o nada”, dizia outro filósofo, um grego antigo chamado Parmênides.
Vazio é como se encontra o coração do torcedor taurino esses dias. Um dos defeitos de um coração vazio é exatamente se deixar iludir. Já dissemos aqui que, sertanejos como somos, qualquer chuvinha nos anima, qualquer goleada nos deslumbra.
E foi assim, nesse alumbramento que começamos a festa em manga, com direito a homenagens e empoderamento feminino. Na escalação, algumas surpresas e os ajustes aparentemente corretos e necessários advindos do último jogo pareciam dar uma sensação de que teríamos um grande jogo.
Pois não foi o que se viu. Contemplamos o Nada.
O Fluminense propositivo se esmaeceu diante de uma Juazeirense bem postada e ciosa de suas obrigações. Parecia que a Juá tinha lido tudo sobre o Touro. Seus jogadores se postavam como profetas ungidos, antevendo toda e qualquer jogada quiçá pensada pelo time feirense. Por conta disso os gols do Cancão foram saindo como como meras consequências...Um, dois... E, ao contrário de outras vezes, o Touro parecia totalmente atordoado, sem mínima capacidade de reação. Naquela altura, implorávamos na torcida para o preço da cerveja baixar e para o primeiro tempo terminar.
Quem sabe, depois de uma conversa de vestiário...
Edu não é Jorge Jesus.
O Flu até voltou melhor, com a entrada de Reinaldo, com mais movimentação. Mas voltar melhor do que o nada que foi a primeira etapa não é suficiente. E a tímida reação pareceu morrer no pênalti bobo no início do segundo tempo.
A partir daí até o mais tolerante torcedor, aquele que não tinha vaiado ainda no intervalo, começou a entregar os pontos.
E o que acontece? O Flu se lança em desabalada carreira e consegue um pênalti. Nicácio, sempre ele, diminui. O Touro se multiplica, num estouro de manada e Reinaldo faz o segundo.
Será que estamos diante de uma reviravolta épica?
Bem qualquer prenúncio de odisseia terminou no golpe no ar, na pancada não vista pela arbitragem, mas presenciada por todas as milhares de almas ali presentes.
Ali, naquele pênalti claro não marcado, esvaiu-se toda e qualquer esperança de reação. Tal qual os passageiros de Caronte, o guia da barca para o inferno de Dante, só pudemos contemplar de longe mais um vacilo dessa frágil defesa do Touro, e chegar aos números finais, aos péssimos números finais de uma partida que não deveria ter existido.
De fato, foi pouco. Foi nada. Pelo que jogou o time, nada ainda é pouco. O empate seria uma injustiça para com a Juazeirense, embora futebol não se trate de justiça.
O fato é que, de fato, esse Flu é histórico. Porque nunca se viu um time tão bipolar como esse. Vai do céu ao inferno em questão de dias.
De Miúra a Ferdinando.
Do melhor ataque à segunda pior defesa do campeonato.
Essa esquizofrenia Taurina, essa rejeição ao Jóia, aos corneteiros da arquibancada, à grã-fina da tribuna, essa aversão em se jogar na torcida.
Esse Flu treme quando houve a bateria da Falange. Se assusta com os gritos da Flucana. Tem arrepios com as músicas da Força Jovem. Tem medo até do fantasma de Legoza, ecoando pelos alto falantes do estádio.
Esse Flu teme o Nada.
E corre o risco de não-ser. De novo.
E corro eu para Cioran, novamente, para tentar ressignificar minha dor suposta universal.:

 

„Ninguém poderia sobreviver à compreensão instantânea da dor universal, pois cada coração só foi moldado para uma certa quantidade de sofrimentos. Existem como que limites materiais para nossa resistência; entretanto, a expansão de cada desgosto os alcança e, às vezes, os ultrapassa: é frequentemente a origem de nossa ruína. Daí deriva a impressão de que cada dor, cada desgosto, são infinitos. Eles o são, na verdade, mas somente para nós, para os limites de nosso coração; e mesmo que este tivesse as dimensões do vasto espaço, nossos males seriam ainda mais vastos, pois toda dor substitui o mundo e de cada desgosto faz outro universo.
Emil Cioran – Breviário de Decomposição

 

Tento em vão será? Imaginar outro universo. Um universo no qual Vitória da Conquista seja um triunfo, no qual Jacuipense não se sinta em C superior e que o Bahia, mesmo o dos meninos, seja só isso. Um time de meninos.
Nesse universo, o quereres e o estares sempre a fim, do em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem, querer-te mal.
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo torcer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do torcer que há e do que não há em um Flu.

 

ÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá... Ê Touro, quem haverá de pegar?

Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e acha que o torcer é uma bruta flor.
Fluminense de Feira 2 x 4 Juazeirense – Jóia da Princesa - 01/03/2020

PS: O mantra ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá, ê Touro, quem haverá de pegar? É um plágio “homenagioso” da música Boi Encantado, do mestre Elomar Figueira de Melo, conquistense, mas, antes disso, menestrel do sertão. A música fala sobre a lenda do Boi Aruá, um boi encantado que não havia vaqueiro que conseguisse pegá-lo. Eu li o livro no primário, a Lenda do Boi Aruá, um conto de Luís Jardim. Mais tarde, Chico Liberato fez o primeiro longa metragem de animação do Nordeste, contando a história (Boi Aruá, 1980), com a música de Elomar na trilha sonora.
PS2: Ápis é o touro sagrado do Egito, representa Osíris reencarnado. Daí o adjetivo apissianas...

 

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