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Apissianas - Crônicas sobre o Fluminense de Feira

Publicado em 21/02/2020 ás 07:10:02

Crônicas Apissianas 2020 V – Se te encanta, se tenta.
Seu corpo com esse esplendor
Queima em labaredas de amor
E o buscapé solitário
Como corre ao léu
Sabendo que você é doce
É doce feito mel

Chiclete com Banana

Na numerologia mundial, há um numeral mágico que se destaca dos demais. Sim meus senhores e senhoras, esse número é o sete. 7. Dois traços um horizontal e uma barra inclinada. Em alguns casos, um tracinho tipo uma gravata. Não tão simples quanto o um, nem sofisticado como o quatro, muito menos cheio de curvas como o oito, o três, o dois, o seis e o nove. Talvez o cinco tenha alguma sofisticação. Mas o sete está lá, rápido, preciso. O sete é número primo. Só se divide por ele mesmo. E o um, claro. Ele se sabe importante, destinado a grandes feitos. Afinal, comecemos pelo maior dos acontecimentos bíblicos, a criação do mundo. Durou sete dias. As pragas do Egito? Sete. Dias da semana, notas musicais, cores do arco íris. Sete. O sete percorre diversas culturas, sendo importante em várias civilizações da antiguidade, desde os judeus e seu candelabro de sete velas, até os chineses. Alguns atribuem a perfeição do sete à junção do três com o quatro, sendo o três o divino e o quatro a terra. Pitágoras, matemático e pai da numerologia afirmou que era um número sagrado, perfeito e poderoso.
Esse papo místico nos chega cá no sertão via bíblia e se espalha em diversos cordéis e contos e causos. E o sete se integra à paisagem do sertão.

Sete botas pisaram no telhado
Sete léguas comeram-se assim
Sete quedas de lava e de marfim
Sete copos de sangue derramado
Sete facas de fio amolado
Sete olhos atentos encerrei
Sete vezes eu me ajoelhei
Na presença de um ser iluminado
Como um cego fiquei tão ofuscado
Ante o brilho dos olhos que olhei

Assim canta Zé Ramalho em sua canção agalopada, sabedor ele do poder das sextilhas, as quais, apesar do nome e de serem compostas por estrofes de seis versos, têm, em cada verso, sete sílabas na sua conformação original nos cordéis espalhados nas feiras livres do sertão.
Feiras
Flu de Feiras.
Pois durou quase duas feiras, quatorze dias, duas vezes sete, o tempo do jogo travado de amargor, o doce fel no domingo dia dois de fevereiro, até o dia quinze no sábado.
Então senhores, o que aconteceu nesse sábado mágico, foi um destino. Um desígnio definido há sete mil anos, e tenho certeza que há algum hieróglifo numa daquelas câmeras secretas das pirâmides de Gizé, com sete pássaros ofertados em sacrifício a Ápis, o Touro sagrado.
Ou talvez até antes, nas pinturas rupestres do parque nacional das sete cidades no sertão do Piauí.
O fato é que esse era um jogo crucial para o Touro. Nunca uma vitória pareceu tão desesperadoramente necessária. Com os seguidos empates, que deveriam ter sido vitória e apenas uma vitória, que deveria ter sido empate, o Flu estava fora do G4, e pior, fora da zona de calendário para o ano que vem. Devemos e temos a obrigação moral, social, cívica, tricolor de conseguir o calendário para 2021. E para isso temos que chegar entre os quatro ou cinco primeiros colocados. Não dá prá chegar em sétimo.
Então, como dizíamos, seguia o Flu para a cidade irmã de Vitória da Conquista, mas não para enfrentar o Primeiro Passo, e sim o Atlanta. Hoje chamado Doce mel, em função do patrocinador do time. Assim como nomes mudam, mudaram as cidades (Jequié, Ipiaú, Conquista). Só não mudaria o hábito de perder para o Flu de goleada.
Vá lá, no íntimo mais profundo e inconfesso de cada torcedor taurino esperávamos sim uma goleada. Afinal, enfrentávamos o lanterna do campeonato. Eu pelo menos tive certeza disso quando vi a escalação. Esse jovem gênio teimoso chamado Edu finalmente resolveu que estava na hora do super-herói entrar em ação.
Se tem uma coisa que jogador não gosta, é de banco. E deixar um cara que estava há mais de sete meses parado, no banco por quatro jogos, é um ritual de provocação que faz o haka dos All Blacks (time de rúgbi da Nova Zelândia, que ficou 300 jogos sem perder) parecer motivação de criança. E foi assim, com um ímpeto de guerreiro samoano que Kleiton Domingues fez sua estreia como titular. E que estreia, amigos! Com 15 minutos já estava dois a zero, dois gols dele, KD. E a defesa do Doce Mel perguntando em redundância, cade KD?
E aí o que fez o time? Relaxou, deixou o adversário gostar do jogo? Não, Kel fez mais um. 3 x 0, fora o baile. Aí vem um castigo, um pênalti bobo contra o Flu. E daí? Daí que esse gol foi um grande erro do time ipiauiense. Porque despertou a outra besta fera taurina, nosso centroavante aventador, miúra. Ele mesmo, Nicácio, o Marcelo resolve apostar com seu colega meio campista e faz logo dois gols. Fim de primeiro tempo, 5x1, fora o baile, a rave, a micareta, o festival de inverno de gols perdidos. Deus sabe das coisas. Um placar desse no Jóia já teria dizimado metade da torcida de felicidade.
Mas aí vem o segundo tempo e como tudo no Flu, nada é fácil.
E não é que o Atlanta vem pra cima e em poucos minutos já diminui pra 5x3?
Os céticos reclamam, como é que toma três gols do lanterna? E agora?
Só que esse Flu tem um espírito que eu só vi em um time. Vi não, me contaram. Mas eu vi na tv depois.
O espírito de sete. Setenta.
Sim, para alguns, aquele foi o melhor time de todos os tempos.
Eu ainda acho o time de 82 mais plástico, mas o de Setenta tem uma pequena grande diferença. Foi campeão mundial. Tri. Talvez inspirado no futebol do Flu campeão do ano anterior, 69.
Pois então amigos, o Flu jogou como aquele time há cinquenta anos atrás, no México. Um time que tinha um ataque avassalador, mas uma defesa nem tanto. E se tomamos mais dois gols no segundo tempo, vamos ao menos igualar. E nada como um pouco de banco também para fazer Granja resgatar seu futebol. E Nicácio resolver ganhar a aposta de KD e tal qual o Furacão, selar a vitória acachapante sobre o adversário. Flu 7. Sete.

Quem vai chorar?
Quem vai sorrir?
Quem vai ficar?
Quem vai partir?
Pois o trem está chegando
Tá chegando na estação
É o Trem das 7 horas
É o último do sertão
Do sertão!...

O Flutrem desgovernado vai. Pra Frente Touro, Touro, Salve o meu Fluzão!
Precisamos de sete vezes dois pontos para garantir cem por cento a vaga nas semifinais. Os três pontos sobre a Juá serão fundamentais.
Mas se o time joga como a seleção de setenta... Não. Pera... O time de setenta foi o que? Tri!
Será?
Então vamos parafrasear mestre Vital Farias em Sete Cantigas para Voar:

Mas recordo a tua imagem
naquela viagem
que eu fiz pro sertão
eu que nasci na floresta
canto e faço festa
no seu coração
Voa, voa, Fluzão.
Voa, voa, Fluzão

ÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá... Ê Touro, quem haverá de pegar?

Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e acha que parecia a Alemanha.
Atlanta Doce Mel 3 x 7 Fluminense de Feira – Lomanto Júnior - 15/02/2020

PS: O mantra ÊÊÊÊÊ Touro Incantado e Aruá, ê Touro, quem haverá de pegar? É um plágio “homenagioso” da música Boi Encantado, do mestre Elomar Figueira de Melo, conquistense, mas, antes disso, menestrel do sertão. A música fala sobre a lenda do Boi Aruá, um boi encantado que não havia vaqueiro que conseguisse pegá-lo. Eu li o livro no primário, a Lenda do Boi Aruá, um conto de Luís Jardim. Mais tarde, Chico Liberato fez o primeiro longa metragem de animação do Nordeste, contando a história (Boi Aruá, 1980), com a música de Elomar na trilha sonora.
PS2: Ápis é o touro sagrado do Egito, representa Osíris reencarnado. Daí o adjetivo apissianas...

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